CRÍTICA TEATRAL: Memória da carne - Por: Jória Lima
Onde se registra a memória afetiva na alma ou nas entranhas da carne? O que é mais imoral deixar morrer de fome ou masturbar-se? De que lado das grades está o verdadeiramente louco e o prisioneiro? De quem e de que forma nos permitimos dar e receber afeto na nossa cultura? A peça teatral Memória da Carne, uma produção da Cia. de Teatro Fiasco, dirigida por Francis Madison, que tem como dramaturgo Fabiano Barros e na atuação Eli Moreno e Cláudio Zarco, provocadiversos questionamentos como esses.
A obra se desenvolve a partir de ramificações de estímulos que se cruzam desde o início do processo criativo: texto, impressões, memórias, ações físicas, dança contemporânea, psicologia cognitiva, a dramaturgia do espaço e vários olhares se superpõem sem se anular e sem subserviências, afetando o trabalho de tal forma que o resultado sai do lugar-comum das montagens realistas/naturalistas e se insere no rol de produções contemporâneas de vanguarda que levam o público a reflexões, gerando diversas ordens de inquietações. Dois homens em cena que estando num mesmo espaço estão separados entre si mas, unidos por necessidades mútuas de afetos, de reconhecimento, de alimento para o corpo e alma. Um espaço não definido onde explodem memórias traduzidas em narrativas de rara beleza imagética como a extraordinária morte da mãe com uma estátua de anjo que lhe cai na cabeça durante uma procissão. Ao mesmo tempo, o exercício da memória revela o esquecimento de si. Desterritorializados os personagens vagam sem sair do lugar, em busca de repostas a questões metafísicas, revelando pensamentos provocativos como: Pra que servem os filhos? Para serem os pais que eles não tiveram, ou ainda, aquilo que amamos é o que nos mata.
A dramaturgia de Fabiano Barros mostra-se contundente, ousada e explícita. A irreverente direção de Francis Madison revela fisicamente a inquietude que se passa no interior dos personagens e do próprio público num conjunto expressivo entre o texto, o contexto, o corpo e a voz. A atuação merece destaque pelo vigor, beleza física dos atores, disponibilidade e talento para darem vida a personagens tão complexos. O local das apresentações é um charme à parte e parece ter sido moldado para apresentações teatrais. Uma encenação à altura de festivais nacionais como o Palco Giratório, vale a pena conferir a produção local.
SERVIÇO:
LOCAL: Faculdade Católica, rua Gonçalves Dias ao lado da Catedral.
HORÁRIO: 20:30h.
INGRESSO: inteira R$ 20,00 (vinte reais) e meia R$10,00 (dez reais) para estudantes.
IDADE: maiores de 16 anos.
SOMENTE AS SEXTAS-FEIRAS.
Fonte: Jória Lima
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